segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Há sensações... e sensações.

Existem momentos, atitudes, sabores, cheiros, toques que nos marcam, que deixam tatuado no nosso subconsciente uma impressão que se traduz fisicamente das mais diversas formas. Um arrepio que percorre toda a extensão da nossa espinha. Uma sensação de chão que foge dos nossos pés, como se fôssemos o Willie E. Coiote, que só após olhar para baixo se apercebe do precipício. Uma sensação de tontura, como se tivessemos levado uma injecção de morfina que nos enturpece os sentidos. Cada um sente todos estes sintomas de forma diferente, o que para um é uma montanha russa, para outro pode ser um soco no estômago e ainda pode haver quem o considere um orgasmo à beira mar. Quem consegue captar estas sensações e gozá-las, compreendendo o seu verdadeiro sentido para si próprio, pode se considerar afortunado, pois experiencia o que de melhor a vida nos pode dar. Mas existem ainda os pregadores, que conseguindo não apenas captar e interiorizar essas sensações, conseguem exteriorizá-las nas mais diversas formas, desde a escrita à música, passando pela pintura e muitas outras formas de arte. Por vezes sinto-me como que experienciando a mais avançada tecnologia de realidade virtual quando ao ter acesso a uma dessas manifestações de sensações de terceiros, eu próprio as sinto e vivo como se fossem minhas... e será que no fundo não são?

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Desabafo

Há um odor fétido no ar em meu redor. Uma sensação desagradável de pele arrepanhada, seca, faz com que sinta um desconforto permanente. Apetece-me despir, não as roupas, mas sim a minha própria pele. O cabelo está oleoso, sinto-o pegado ao couro cabeludo como se de um parasita se tratasse, sugando-me a sanidade, impondo-me tremores de desconforto e arrepios na espinha. Sinto-me imundo, como se há minha volta irradiasse uma aura de podridão, cuja fonte só posso ser Eu! Quero à força libertar-me de mim próprio, fugir de quem sou, espezinhar este eu que me envergonha. Grito mentalmente! Um grito gutural, de revolta, de insurreição, de nada... é abafado... por mim... por quem sou. Fraco. Egoísta. Acomodado. Não gosto, mas tenho de viver comigo mesmo. Sobreviver. Uma erva daninha cresce no interior do meu peito, sinto-a ganhar força, expandir-se. Por cada centímetro que progride, uma angustia aperta-me o coração, forma-se névoa na razão. Neste momento já tenho uma frondosa parasita a tomar conta do meu destino, e eu como jardineiro dedicado, vou alimentando-a.

quarta-feira, 25 de março de 2009

O que me falta?

Sinto-me estranho, não sei bem explicar como nem porquê, mas algo em mim não está bem. Tenho passado estes últimos dias sem nada para fazer, e sem vontade de fazer nada. Fico horas de olhar perdido, vagueando pelas variadas formas que me rodeiam sem que nada capte a minha atenção. Tento forçar-me a iniciar uma qualquer actividade, que habitualmente me traria prazer, me deixaria entretido, concentrado. Mas no entanto, tudo o que inicio não me cativa a atenção, parecendo-me como que uma bebida tépida, de sabor indescritível, que não me mata a sede que sinto. Continuo a deambular, sem destino certo, sem uma finalidade exacta, percorro as várias divisões da casa sem me deter em nenhuma. Resolvo sair, de queixo levantado sinto o sol raiado inundar-me o rosto de uma luz viva, quente, pulsante, mas rapidamente perco o interesse e a sensação de estranheza, de desconforto, volta a entranhar-se em todos os meus poros, deixando-me desejoso de sair dali, de ir para outro lugar. Para onde? Não sei. Sigo os meus pés, que ganham vida própria, seguindo em passos decididos, transparecem conhecer melhor o destino pelo qual anseio. Receoso do desconhecido resolvo tomar novamente as rédeas de mim próprio, impondo-me uma contenção incomodativa prescruto uma rebelião emocional prestes a transbordar do meu interior. Através do meu olhar já turvo há algo por fim que me capta a atenção, que reluz no meu inconsciente como um fino raio de sol que encontra um diamante lapidado, iluminando tudo em seu redor. Foi ao olhar para o calendário que percebi que ainda faltam 2 dias para te ver...

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Razões que a razão desconhece III

Um cheiro activo, demasiadamente doce, irrita-me o nariz. Sinto uma comichão percorrer-me o corpo, pega-se a mim desde o interior como uma gosma pútrida e fétida da qual não nos livramos nem com uma barra inteira de sabão azul e um esfregão de aço. Sempre que a vejo não consigo evitar este tipo de sensação, a forma como se pavoneia diante de todos, os constantes gracejos que lhe emitem, os raios de sol que emanam do seu sorriso, o andar felino que parece fazer até as cabeças recentemente guilhotinadas se virarem para a admirar! Detesto-a! Esmaga totalmente o meu auto-controlo, deixa-me o sistema nervoso parecido com o processador de um 286 enquanto tenta processar imagens 3D. Tudo isto deixa-me incrivelmente excitada, muito para-além de um lémur que bebeu 2 litros de café, e ele gosta. Não percebe o porquê de eu querer que me fale de ti, ou o porquê de eu querer saltar-lhe para cima sempre que estivemos os três no mesmo sitio, depois de termos partilhado olhares, comentários travessos, observações mordazes. A culpa é toda tua, ele sabe que é, mas não sabe porquê. Eu também sei que a culpa é tua. Apesar de todos os sentimentos visceralmente odiáveis que vêem ao de cima sempre que te vejo, sempre que penso em ti, não consigo ser superior, não te consigo esquecer nem consigo fazer esquecerem-te. Convenhamos que eu não sou propriamente de deitar fora, corpo robusto, desportista mas não pervertidamente distorcido para além da feminilidade socialmente aceite, inteligente, bonita, e com um requintado "saber estar" na alta-sociedade. No entanto, sempre que estás presente, podia ser facilmente considerada uma serva ranhosa... Mas hoje é o dia. Hoje o robô teleguiado que comandas a teu belo-prazer descobriu os teus segredos mais profundos e repugnáveis. Quem achas que lhe abriu os olhos?! AHAHAHAHAH! Devias ter visto o seu olhar de cachorro abandonado, ensacado e sovado cruelmente. Quase não consegui suster um sorriso, de triunfo, de alegria, de satisfação. Quando o vi empunhar aquela faca quase quis que ele a usasse em mim para me fazer parar de lhe implorar que não te maltratasse, mas os meus olhos lacrimejavam mais do que a minha razão podia perceber. O meu coração latejava. O mundo desabou deixando-me em queda livre. Só agora consegui perceber que tudo o que eu queria não consegui ter, mas consegui com que mais ninguem o tivesse!

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Razões que a razão desconhece II

Após conduzir durante aquilo que me pareceu uma eternidade, os meus olhos ardem inescrupulosamente. Lanço um olhar para o espelho desfeito em cacos, as minhas dezenas de reflexos mostram-me um ar abatido, desconsolado. Os meus olhos, vermelhos, inchados, como dois seios de uma mãe que não produziu leite suficiente para o seu filho insaciável estão incapazes de lacrimejar uma gota mais. No rádio uma voz feminina canta:

Woooohh
Do you believe
In what you see
There doesn't seem to be anybody else who agrees with me
Do you believeIn what you see
Motionless wheel
Nothing is real
Wasting my time
In the waiting line
Do you believe inWhat you see
Desperta-me da inércia em que me encontrava, curioso como certas músicas captam bem o estado de espírito em que nos encontramos. Sinto-me como se o tempo tivesse parado, como se a realidade que vejo fosse apenas fruto da minha imaginação... mas não, a dor que me aperta o coração é demasiado forte, como se me deslocasse num jacto em manobras contra-natura experimentando forças G para além do que é humanamente possível de aguentar. O meu peito parece ceder perante tamanha pressão, sinto dificuldade em respirar, coloco a minha mão sobre o peito enquanto arquejo, o meu coração dispara para mil à hora. Aproximo-me da berma para poder descansar e é quando percebo que estou junto a uma estação de serviço. Saio a custo do carro, desloco-me sobre aquilo que parecem ser dois caules de trigo ressequido após a colheita, sinto que a mais leve brisa me pode derrubar. Peço um café à jovem adolescente borbulhenta que se encontra de serviço enquanto me sento para descansar. O local é pobremente iluminado e a decoração parece saida de um filme dos anos 70, sobre o velho Oeste. A jovem agarrou numa pequena chaleira e refugiou-se na cozinha, nem uma máquina expresso têm! Ahh como é bom reparar novamente nas trivialidades, dou por mim muito mais relaxada, o batimento cardíaco parece ter regularizado e o peso que me sufocava o peito parece ter desaparecido. Esboço um sorriso tímido por mostrar finalmente sinais de retoma quando reparo nele! O seu rosto meu encoberto por uma sombra deixa antever uma crueldade, uma desfiguração que nenhuma acção humana, física poderia ter provocado. Ele olha para mim fixamente, uma sensação gelada percorre-me desde o interior e sinto as minhas pernas novamente como varas verdes. Refugio-me na casa de banho, molho a cara com água fria e procuro com uma ténue esperança encontrar uma réstia de confiança, auto-segurança, aquela personalidade decidida que sempre me caracterizou, mas o meu reflexo transmite-me exactamente o oposto. Como pude ter caído neste abismo, do qual não encontro salvação?! Passo as mãos novamente pelo rosto, inspiro profundamente e penso numa vontade irresistivel de fumar. Isso, um cigarro serve para me acalmar. Abro os olhos e vejo novamente um rosto, desta feita foi o rosto que deixei poucas horas antes naquela praia deserta, mas não como me recordava dele. O seu olhar inexpressivo, contrasta com a sua expressão facial de desespero, medo e assombração. Gotas vermelhas caiem do seu pescoço decepado. Sinto os meus músculos endurecerem como nunca senti, não respondem a qualquer ordem que lhes dê, nem sei bem se o meu próprio cérebro responde à minha vontade de dar ordens. Pareço estar sobre um feitiço congelante, vejo tudo o que se passa, sei o que vai acontecer, quero reagir mas nada acontece. Por detrás está novamente aquele olhar frio, selvaticamente aterrorizador, agora à luz fluorescente das lampadas da casa de banho reconheço-o, embora esteja diferente, desfigurado daquilo que me lembrava. Não é deste rosto que me lembro quando trocámos votos, no entanto agora apresenta uma transfiguração empunhando uma faca e nem uma palavra. Sinto o chão gelado debaixo do meu corpo, no entanto isso não parece impedir uma subita vontade de fechar os olhos e dormir, a luz no tecto parece extinguir-se lentamente, mas as minhas pálpebras mantêm-se abertas, ouço o som abafado de uma porta a bater e em seguida... escuridão.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Razões que a razão desconhece

Dou uma última baforada no cigarro, o fumo àspero e quente percorre a garganta até sentir a sensação de bloqueio nos pulmões, sustenho-a por um bocado e finalmente expiro. Atiro a beata para a areia e movimento o meu pé ao jeito do twist, riu para mim própria com esta associação e começo a deslocar-me na direcção do meu carro. A escuridão da praia deserta não é um problema, a lua cheia ilumina-me o caminho fazendo reflectir a minha sombra no areal disforme, como se de um ser etéreo se tratasse. Abro a porta do carro e lá está ele, o seu rosto descansado, angelical enquanto dorme, o seu corpo descontraído sobressaindo os seus músculos levemente tonificados, toda esta visão traz-me à memória os instantes que ainda há pouco vivemos. O calor que os nossos corpos emanaram, embaciando os vidros. A explosão de prazer que partiu do confim mais recôndito dos nossos seres. Percorro o teu rosto com os meus dedos, levemente, de olhos fechados vou imaginando o teu sorriso, o teu olhar ternurento, o jeito que fazes com a sobrancelha quando dizes algo com um segundo sentido. Lembro os tempos que passámos juntos, sozinhos e acompanhados pelos nossos amigos, dos passeios que fizemos, das músicas que dançámos, do amor que sentimos. Um grito cavernoso brota do meu interior, ecoa na minha cabeça com todo o seu fulgor fazendo-a zunir ao ponto de cerrar os dentes e libertar um olhar irritado para o espelho que teima em exibir o meu reflexo orgulhoso. Uma lágrima desponta de mim e como se um leve mosquito pousasse sobre o botão de um detonador desfiro um golpe no espelho. Uma dor lancinante percorre-me e culmina numa fonte vermelha que cai dos nódulos da minha mão. Tu acordas, olhas-me pasmado ainda meio ensonado e totalmente desnorteado. Começas por balbuciar qualquer coisa mas nem te dou tempo, beijo-te desesperadamente enquanto abro a porta do carro e empurro-te abruptamente. Ficas sem reacção e permites que eu feche a porta, que a tranque e ligue o carro. Fujo de ti e mais lágrimas irrompem a flor dos meus sentidos, sinto-me como se tivesse rebolado num roseiral com uma infinidade de chagas latejando, chamando a atenção para si, individualmente. Porque não me impediste?

quarta-feira, 12 de março de 2008

Título para quê?!

Passas por mim deixando o teu odor, suave, fresco como uma noite de verão em que uma leve brisa faz chegar a maresia ao meu sentido olfactivo. O teu olhar expressivo diz-me mais do que mil palavras, penetra-me por breves instantes, percorre-me a alma e ilumina-me a percepção. Sigo-te como que enfeitiçado, sentindo o rubor na minha face, originado pelo sangue que começa a circular mais rapidamente e aquece o meu corpo, enche-me de energia! Abres a porta e desapareces, deixando-a encostada. Entro atrás de ti e sou subitamente arrebatado contra a porta que se fecha com um estrondo, os teus lábios beijam os meus sôfregamente, envolvo-te num abraço, forte, quero sentir-te junto a mim, o teu calor juntamente com o meu, o correr do teu coração, a tua respiração ofegante... Tiras a minha camisola num gesto brusco, impaciente. percorres o meu peito, o pescoço, as costas, com as tuas mãos levemente arranhando a minha pele arrepiada com os beijos que vais dando em locais estratégicos, que conheces bem. Ponho as minhas mãos em volta da tua cintura e arremesso-te contra a parede, num gesto de violência sedutoramente súbtil, percorrendo a tua pele por debaixo do top sinto-a arrepiar-se enquanto te contorces ao ritmo dos meus beijos no teu pescoço, na tua orelha. Dispo-te o top e beijo-te o peito, soltas um breve gemido e entrelaças as tuas pernas à minha volta, apertando-me fortemente enquanto te contorces respirando ofegantemente junto ao meu ouvido. dás um impulso na parede e atiras-nos para o sofá, desenlaças as tuas pernas e despes-me as calças. Inicias uma viagem descendente, beijando e acariciando-me com os teus lábios até chegares junto do meu sexo, altura em que te puxo para mim e beijo apaixonadamente. Desaperto-te as calças, reviro-te para debaixo de mim e começo a retira-las ao mesmo tempo que percorro as tuas coxas, lindas, suaves, com os meus lábios. Cedendo ao desejo, como um fruto cede ao passar do tempo, ponho as tuas pernas novamente em torno de mim, sentindo-as entrelaçarem-se como um hera se entrelaça numa árvore e perscruto o teu interior recheado de sensualidade feminina, pulsando sensualidade e desejo, afagando o meu órgão masculino no auge da sua virilidade.

quinta-feira, 6 de março de 2008

"Síndrome de David"

Há dias em que me sinto um "David", resignando-me à minha pequenês perante a forte e impunente estatura de outros. Mas ao contrário de "David", a minha determinação dilui-se tal como as pétalas de um dente-de-leão se perdem ao sabor de uma corrente de ar um pouco mais forte, dando lugar à sensação de angustia e impotência, como "Sansão" sentiu mal lhe cortaram o cabelo. A falta de poder e os parcos argumentos que me atrevo esgrimir só servem para me mirrar mais, como se fosse um balão cheio de ar mas com um nó pouco vedante, que exige uma constante baforada para o manter na sua plena forma, no seu ponto ideal, aquele ponto em que atinge todo o esplendor e beleza que pode sonhar alcançar, mas no qual luta contra a derrota inevitável que será o seu murchar e voltar a ficar vazio. Para além deste triste fado, temos ainda outros balões, que por infeliz acaso do destino, nasceram com uma maior superfície de borracha, e uma cor mais atraente, a quem parecem dar nós bem dados, permanecendo, num período de tempo que parece eterno, no fulgor da sua existência, relegando para segundo plano todos os outros. Podemos sempre invocar a determinação e coragem de "David", desafiando os gigantes ao tentar voar mais alto que estes. Uns conseguem... outros não. No fim todos murchamos e voltamos ao que éramos, mas não na sua forma original, pois as marcas daquilo que entretanto atingimos permanecem, para nos assombrar.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Começar de novo

O que se passa comigo?! Vejo o mundo pelos meus olhos como se fossem de outra pessoa, as cores, os rostos, a claridade, tudo me parece novo, como se fosse um recém nascido. Os sons assustam-me, provocam espasmos de reacção involuntários em jeito de adaptação a algo totalmente desconhecido. Os toques parecem choques electricos, descarregando um chorrilho de sensações à flor da pele em breves milisegundos. Ainda mal recomposto de tamanha surpresa começo a enveredar contra a corrente que me inunda o consciente de sensações diversas, todas elas estranhas, mas confortáveis, agradáveis, prazerosas! É o meu inconsciente que me guia, ordena o deslocar dos meus membros inferiores numa determinada direcção, a qual não identifico imediatamente. Transporta-me por caminhos incertos, cheios de irregularidades, obstáculos e desafios que transpõe com uma facilidade e destreza física assustadora. Está decidido a atingir a sua meta, e nada o deterá... me deterá. Por fim os meus pés detêm-se. Ergo o olhar e uma súbita ternura invade-me, aquece-me a ponto de fazer queimaduras de 2º grau no meu peito. Um suave aroma, doce, fresco, hipnotizante, atrai-me como o pólen atrai as abelhas. Aterro num toque macio, quente e arrepiado. Ouço uma respiração ofegante juntamente com um batimento cardíaco, alterado, correndo desenfreadamente. Junto os meus lábios ao teu ouvido e digo com uma voz em jeito de suspiro: "Enfim encontrei-te".

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Rascunho

Após um virar de página do meu bloco de esquiços, uma nova banda sonora começa a tocar. Melodias suaves invocando sensações positivas, momentos de alegria, inundam-me o espirito, iluminam um esboço do que está prestes a ser escrito. A sensualidade dos traços firmes e angulosos hipnotisa-me, seduz-me a ponto de querer me fundir com o papel, fazer parte da mensagem que este pode transmitir e despertar emoções a quem quero me dirigir. Sorrio mentalmente enquanto vou cantarolando. A minha mão vai cedendo aos caprichos da música que me invade, num movimento fluído a história segue o seu rumo, naturalmente, vai-se embelezando como uma mulher que se cuida para seu próprio prazer, retocando até o mais ínfimo pormenor, porque o todo nada mais é do que a soma das várias partes, e nada pode ser deixado ao acaso. O fio vai-se desenrolando, feliz, sem qualquer preocupação sobre os obstáculos que possa encontrar, continua em perseguição do seu propósito de juntar as pontas e formar um mundo só seu, onde nada se possa perder, excepto ele próprio.
Estou a viver esta história. Não sei como vai terminar, mas estou a gostar da viagem.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

I - A representação da minha vida

Há dias em que me sinto guiado, conduzido, por uma força superior, algo inexplicável. A sensação de que não controlo o meu próprio destino é aterradora, deixa-me nervoso, obriga-me a refugiar-me num mundo de criatividade e imaginação, tentando sofregamente discernir uma solução, uma forma de quebrar a rotina traçada. No entanto, tudo o que penso e executo parece estar previamente traçado, como se o meu livre arbítrio mais não fosse do que uma ilusão provocada por uma droga alucinógenea tornando o mundo em que vivo mais agradável e aconchegante. A sensação de impotência alastra-se até aos meus poros, arrepia-me a pele e enrijece os meus músculos. Condiciona-me os movimentos. Limita-me o pensamento. Isto mais não é do que um condicionamento psicológico, mas confrontá-lo seria como um pequeno fantoche que luta por retirar a mão que o comanda desde as entranhas. Há dias assim... em que me sinto um marreta actuando perante um público difícil de agradar, tentando entretê-lo, fazê-lo esquecer a dura realidade que abandonou mal entrou na sala de espectáculos. O problema é que o público representa o meu eu consciente, realista, o enredo representa o meu subconsciente que tenta entreter, ou até mesmo orientar o público... e eu, personagem principal, sinto-me perdido, sem saber bem as deixas e o posicionamento correcto em palco. Profiro palavras sem saber bem o que dizem, desloco-me sem saber bem o que pretendo mostrar. O "ponto" gesticula para mim, manifesta desagrado no seu rosto. O público não vaia nem aplaude. E eu... não páro de representar.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Gostar é querer

Gosto da forma como defendes, com unhas e dentes, as tuas opiniões. Gosto de te ver fechar os olhos, inclinar a cabeça e rodar o pescoço em jeito de descontração muscular. Gosto do leve trejeito que os teus lábios pronunciam quando te toco carinhosamente no pescoço. Gosto quando suspiras audivelmente, manifestando publicamente o teu cansaço, e depois deitas a tua cabeça no meu colo e sucumbes de bom grado ao passear dos meus dedos pela floresta densa do teu cabelo. Gosto da forma como inclinas levemente a cabeça assim que te abraço por trás, ansiando o aconchego dos meus lábios na pele macia e perfumada do teu pescoço. Gosto quando me abraças, forte, e choras, partilhas a tua dor comigo. Gosto quando cuidas de ti, das pequenas pausas que fazes no dia-a-dia em que cumpres o ritual de adoração ao teu corpo, em que o amacias, o embelezas, o perfumas. Gosto quando sorris, do som, agradável, amigável, feliz. Gosto quando cruzas o olhar comigo em locais públicos, da forma como não precisas falar para que tudo faça sentido para mim. Gosto da forma como marcas presença, onde quer que estejas, distingues-te, reluzes como um farol, não sendo egoísta ao ponto de querer que reparem nele, mas querendo sim avisar do perigo que pode representar o ignorar da sua aproximação. Gosto de todas essas pequenas coisas que te tornam única para mim. Quero-te...

sábado, 8 de dezembro de 2007

Árido

Hesito em abrir os olhos, uma claridade imensa invade os meus sentidos, sem qualquer tipo de pudor ou compaixão, desperta-me. Olho em redor e cá está ela de novo. Sempre a mesma paisagem, árida, de tons secos, sem vida. Apesar da sua constante mutabilidade ao sabor do vento, a sensação que me causa é sempre a mesma, a sensação de desespero, a vontade de desistir, ceder perante o calor abrasador, deixar que o vento leve o meu corpo de papel ressequido até que esta superfície me assimile em si. Inspiro. Novamente nada! As minhas capacidades olfactivas continuam inxistentes, apenas um tremendo desconforto enquanto o ar parece arranhar-me as vias respiratórias. Apetece tussir, mas isso só pioraria a situação. O ambiente abafado em meu redor lembra-me das condições terríveis a que continuo exposto. Sinto-me transpirar, mas já nada tenho que possa servir ao propósito de arrefecimento do meu corpo. Sei que tudo é inútil. Vaguear durante o dia, por dunas, horizontes intermináveis repletos de uma paisagem morta que me quer subjugar, vergar até que ceda. Eu quero ceder. Não quero voltar a sentir o frio gélido que a noite me proporciona. O silêncio ensurdecedor que me enlouquece até que por fim adormeço e recomeço tudo novamente. Mas há algo em mim que luta. Luta contra a minha própria vontade. Até nisso sou fraco, deixo-me ser dominado pela parte de mim que não posso gerir conscientemente. Tudo o que ela me diz não é claro, é algo muito ténue, como conceitos imperfeitos, mas que acabam sempre por fazer todo o sentido. Tal como as mãos experientes de um artista de marionetes, continua a guiar-me, a forçar-me a resistir ao apelo dos milhões de grãos de areia que parecem cantar para mim. Chamam-me, seduzem-me... Mas não. Continuo a exercer movimentos involuntários que me levam na direcção de cada vez mais deserto. Busco pelo "oásis", que o meu subconsciente me apresenta como salvação, eternamente, sem nunca o encontrar.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

1.5 - Revelação

Tu tu tu tu tu tu. Que barulho ensurdecedor é este?! Ergo a cabeça e percebo que não estou na minha cama, nem tão pouco em minha casa. Arbustos contorcem-se ao sabor de uma ventania tresloucada, artificial. Descubro um helicóptero a sobrevoar-me. Ouço gritos, vozes graves, severas, impõem respeito aos cães que latem de forma aflita, percorrendo tudo com o seu faro apurado. Não percebo o que se passa aqui mas o meu instinto leva-me a permanecer oculto, pelo menos enquanto tal for possível. Aproveito-me da minha posição elevada e da dificuldade de ascensão para me deslocar furtivamente por entre arbustos e rochas. Ao agarrar-me a um caule de um arbusto uma dor aguda congela-me os músculos, imobiliza-me como o veneno de um predador que espera a hora mais indicada para iniciar a sua refeição. O meu braço... ferido! Da breve análise que lhe fiz deu para perceber que se tratava de uma bala, lembrando os homens, armados, que ainda agora avistara, a ideia de me levantar, tornar-me visível, ficara totalmente fora de questão. Faço um esforço por quebrar esse feitiço da imobilização que me havia envolto e recomecei a minha deslocação. Ainda não percebo a que se deve tudo isto, mas o meu instinto de sobrevivência está a zunir como um alarme enlouquecido, tentar ser racional parece-me uma coisa de loucos neste momento. Mas porquê?! Porque sou perseguido?! A esta hora deveria estar no emprego, mas em vez disso encontro-me num sítio desconhecido, ferido, sendo perseguido, sem a mínima noção do que acontecera que o justifique. A minha memória, que ultimamente parece mais uma manta de retalhos, atraiçoa-me, apunhala-me pelas costas ao não me revelar o que fizera entre ter ido à praia, ontem, desanuviar após mais um dia de trabalho e esta manhã surreal. Os latidos, agora mais próximos, interrompem este meu estado letárgico e fazem-me voltar à realidade. O meu coração denuncia o nervoso que me afecta, acelerando desenfreadamente como se se tratasse de um carro desportivo, com uma única mudança, que se aproxima vertiginosamente do limite das suas rotações. Perco a pouca senilidade que me mantinha agachado e precipito-me numa correria. Novamente as vozes, desta feita tornaram-se imperativas, ordenando-me que parasse. Um ruidoso estrondo, como o provocado por um trovão seco oriundo de uma tempestade muito perto, assustou-me. Num impulso tento parar, mas o terreno escorregadio de uma íngreme descida engole-me, suga-me. Numa tentativa desesperada recorro reflexivamente aos arbustos que me ladeiam, tento agarrar algo. Por fim consigo suster todo o peso do meu corpo em movimento com a força do meu braço esquerdo. Encontro-me suspenso no ar. Lá em baixo as ondas agridem violentamente a formação rochosa deste penhasco. Como vim aqui parar?! O que fiz eu para merecer isto?! Apesar de não perceber a razão de tudo o que me está a acontecer, não me sinto injustiçado. O facto de estar encostado a uma parede sendo ameaçado por uma pistola empunhada por um doente de Parkinson também não me aflige como era de esperar. O que me atormenta são as imagens que principiam a aparecer na minha memória, como se os pedaços originais da manta quisessem voltar aos seus respectivos lugares, expulsando os retalhos que os haviam substituído. Imagens de rostos, situações de cólera, violência despropositada, e satisfação genuína deixam-me incrédulo. Como fui capaz?! Porquê?! Surge uma mão fardada de azul, os lábios de quem a estende movimentam-se, lentamente, mas o som que emitem soa-me abafado e incoerente. Os seus olhos transmitem desprezo, ódio, congratulam-se por me ver assim, mas ao mesmo tempo suplicam-me para que lhe agarre a mão. Esboço um sorriso de trejeito, como quem pede desculpa e deixo-me ir... agora sim, sei o que estou a fazer.

1.4 - São cada vez mais.

TraaaaBUuuummmm! Permaneço a olhar o mar, o céu cinzento de inverno adequa-se ao frio que trespassa a carne dos meus pés, directamente ao osso percorre-me um arrepio glaciar. Os meus pêlos eriçam-se e sinto o vento passar por eles fazendo-os bailar com pézinhos de lã, graciosamente, deixando a sensação de ser o palco central de uma marcha de milhares de formigas. O som da ondulação, após o ribombar da sua formação, quando se insinua pela areia de uma forma indecente, sensual, fazendo os pequenos grãos desta estremecer de prazer como se vivessem uma viagem louca numa montanha russa, assemelha-se ao ar que desloca inúmeras folhas ressequidas de uma zona arbórea, até que por fim é absorvida em parte pela areia, mas essencialmente pelo seu pai que a chama de volta para uma nova investida, uma nova tentativa de sedução e, por fim, a conquista da costa. O odor a maresia rodeia-me, entranha-se nos meus poros. Não há outra altura em que a maresia tenha um odor tão fresco, tão livre, tão hipnoticamente perigoso como no inverno. O entorpecimento dos sentidos é como que subjugado pelo odor, pelo ribombar da ondulação e pela sensação gélida proporcionada por toda esta experiência. Desenterro os meus pés, parecendo perfeitos cubos de gelo, e desloco-me pela areia como se pisasse ínfimos pedacinhos de vidro fazendo novamente os meus pêlos eriçarem-se e com que eu tente, infrutiferamente, ter os pés assentes o mínimo de tempo possível. Paro subitamente e relembro o que me havia trazido cá, olho em frente e vislumbro uma sombra espectral vermelha incandescente, franzo os olhos e sinto elevar-se a minha força, o meu espirito fica possuído por uma vontade irascível, odiosa e aniquiladora. Deixo de ouvir o que quer que seja, sinto apenas um odor nauseabundo e pestilento a peixe misturado com álcool de péssima qualidade e suor, a minha visão torna-se focada num alvo e tudo à minha volta se revela turvo, deformado, como se me deslocasse a uma velocidade vertiginosa. Pego numa rocha áspera, as suas formas irregulares e pontiagudas ferem-me a mão que sente o ardor provocado pelo sal da água, ainda presente nesta, que se mistura com o meu sangue. Aproximo-me do meu alvo velozmente e desfiro um golpe atroz. Ouve-se um som abafado e sinto algo quente espirrar para a minha cara, o seu corpo queda-se pela areia mas eu não paro, continuo a desferir golpes até saciar este ódio que me percorre a alma. Ultimamente vejo cada vez mais e mais monstros, demónios e seres, pura e simplesmente, maus. Quero acabar com este como se se tratasse de todos esses outros. Sinto-me acalmar, o cheiro a maresia, agora misturado com o agri-doce do sangue inunda-me as narinas. Ouço vozes ao longe, parecem gritar. Repentinamente sinto uma dor agonizante, olho para o meu braço direito e encontro-o ensanguentado, mais ainda do que seria de esperar após o abate daquela criatura, viro-o e apercebo-me da fonte de todo este vermelho vivo que jorra de mim, uma bala! Disparam sobre mim! Estão loucos?! Acabei de vos fazer um favor... imbecis! Não desejo ficar e descobrir porque atiram sobre mim, precipito-me em direcção ao penhasco e desapareço na sua vegetação rochosa.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

1.3 - Irascível

Que irritação! Ando estranho ultimamente, tudo, por mais pequeno que seja, me provoca uma irritação tremenda, e essa propensão para a irascibilidade gratuita não me deixa contente comigo próprio. Deve ser do pouco que tenho descansado, de há uns meses para cá que acordo sempre exausto, não me recordo dos sonhos, mas sei que são desagradáveis. Para ajudar à festa, é extenuante o meu contexto profissional. Pessoas a queixarem-se constantemente, ainda que pouco ou nada façam, e os enormes prazos de resposta a qualquer acção que se queira tomar. Impressiona a forma desconcertada como tudo parece estar implementado e no entanto, as coisas aparecem feitas, a funcionar, ainda que seja mais tarde do que cedo. Para além disto, os media só falam dos corpos mutilados que têm sido encontrados. Adoram estas desgraças. É o que vende mais e o público devora cada novo artigo ou reportagem com uma intensidade como se a sua vida dependesse da informação lá contida. Acreditam mesmo que serão as próximas vítimas?! Provavelmente sim. Ou então é o seu subconsciente justiceiro, subjugado desde pequenino pela formatação socialmente aceitável, que anseia por se mostrar nem que seja em pequenas discussões entre amigos, tentando apresentar argumentos que sustentem as suas teorias ao mesmo tempo que refutam as teorias contraditórias. Por vezes até eu me quedo em leituras sobre esses casos. A própria polícia não parece saber bem o que procurar, ou o que julgar. Apesar das semelhanças entre os casos, também existem factos contraditórios que quase excluem por completo a hipótese de se tratar da obra de um único maníaco. Por vezes dou por mim a olhar em meu redor e a pensar “Não seremos todos maníacos?!”. Continuamos a esfalfar-nos horas seguidas por um ordenado que nunca parece chegar para as nossas necessidades. As nossas necessidades! Logo que satisfeitas dão origem a outras, sempre num patamar acima. Maslow e outros autores desenvolveram teorias sobre isso, mas em todas elas havia um cume, um tipo de necessidade que era o auge, após a qual não existe mais nenhuma que a exceda, o que existe é sempre necessidades recorrentes, que apesar de serem satisfeitas uma e outra vez, surgem novamente. O ridículo é essa busca incessante pela satisfação de necessidades nos consumir o tempo todo, não fazemos mais nada! Até quando dormimos estamos a cumprir com uma necessidade, a do descanso. Estamos a descansar e ao mesmo tempo a trabalhar, a trabalhar para o descanso, o que... só em si, cansa! O 1º cadáver encontrado, uma jovem, bonita por sinal, encontrava-se trespassada por um pau, a julgar pelo estado do seu corpo foi violentamente mutilada. Quando a polícia conseguiu identificá-la, já outros dois homicídios haviam ocorrido, em locais totalmente distantes e de formas díspares. Cá para mim estamos perante um, ou vários indivíduos que atingiram um ponto de ruptura nesse ciclo de cumprimento de necessidades. O pior de tudo é que mesmo estando consciente de tudo isto, consigo visualizar-me a enveredar por essa ruptura também. É algo inevitável. Como se de uma nova necessidade se tratasse. A fuga à banalidade, à repetição intemporal. A sociedade está chocada! Porquê?! É uma questão de equilíbrio mental. A sociedade perfeita não existe, julgo que já todos o sabemos. Se não existirem estes tratamentos de choque toda ela enlouquecerá. Assim são apenas pequenos fogos que cedo ou tarde serão apagados, mas que obtêm o seu principal propósito... lembram-nos de que o nosso mundo é inflamável. “Já viu isso?! Está tudo louco. Desatam assim a assassinar pessoas indiscriminadamente e ninguém faz nada. É sempre a mesma coisa!”, após a surpresa em ouvir esta voz cavernosa dirigir-se a mim, não pude deixar de pensar que era mais uma observação irritante e inteiramente desnecessária. E esta mania, absurda, de meter conversa com alguém totalmente desconhecido, apenas e só porque está a ler um artigo sobre a actualidade mais badalada. Não pude evitar retorquir “E você, tem feito algo para resolver estes casos?!” – fui obviamente indelicado, mas não totalmente despropositado – após o embaraço inicial, o homem de meia idade, com um bigode típico, sinais claros a indicar uma obesidade excessiva e o rosto rosado denunciando a dificuldade em exercer qualquer tipo de esforço físico, até mesmo o simples acto respiratório parecia ser uma tarefa extenuante na vida deste, hesitou até responder num murmúrio quase imperceptível “Se faço alguma coisa?! Que descaramento. Não sou eu que tenho de fazer alguma coisa... sinceramente...” no entanto, nem ele próprio parecia muito convicto da sua razão. Dei por mim de olhar fixo neste homem, a pensar “Mais um que se apercebeu do quão insignificante é a sua vida! Mais um que teme, do fundo do seu ser, que alguém o descubra para além dele e resolva tomar-lhe a vida. Disfarça melhor meu caro, pois até eu posso cair nessa tentação.”.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

1.2 - A iniciação após o despertar.

Está frio e a humidade cola-se a mim como se procurasse um sítio em que poderia secar-se. Acordo com pingos a encharcarem-me a cara como se estivesse no meio de dezenas de relógios, todos a soarem o seu “tic-tac” de forma descompassada. Ergo-me e logo perco o equilíbrio, estou em terreno incerto, macio, mas com pormenores rígidos e de formas desordenadas. Está um breu desgraçado, nem mesmo as minhas mãos, mexendo-as à frente da minha cara, me são visíveis. Fecho os olhos, concentro-me e oiço... oiço os pingos a caírem suavemente em superfícies de textura variada, oiço sons agudos, uns mais distantes, outros mais perto, mas todos eles imperceptíveis na sua individualidade. No entanto, no seu todo, eu diria que estou no meio do mato, ou de uma floresta, isso justificaria a falta de luz, deve ser por causa da copa das árvores, provavelmente densa. Vejo uns rasgos de luz ténue, esbranquiçada mas sem ter aquele tom artificial. Luz lunar. Preparamo-me para ir na sua direcção mas sou subitamente retido. Algo me agarrou?! Ou foi impressão minha?! Da escuridão surge uma voz, forte, decidida, mas ao mesmo tempo meiga e compreensiva. “Enfim acordaste. Parece-me que a Madalena exagerou na dose. Bom, vamos ao que interessa, se te estás a perguntar quem é este que te fala? Onde estás? E essas perguntas todas... deixa-as de lado. Já sabes a resposta a todas elas, caso contrário não terias sido escolhido.” Estranhamente tudo fazia sentido para mim, era como se o meu subconsciente absorvesse a informação, a processa-se e depois realizava uma apresentação resumida para que o meu eu consciente compreendesse. Fiquei calado. A voz tomou o meu silêncio como a perfeita compreensão do que havia proferido e continuou “Hoje é o culminar do teu despertar e a tua iniciação. Tens uma missão para cumprir, se o fizeres a iniciação terá sido bem sucedida. Caso contrário esquecerás tudo o que te foi, até agora, revelado e regressarás à tua vida de sonâmbulo.”. Fiquei novamente em silêncio. “Muito bem. Volta a cerrar os olhos, concentra-te, tal como estavas a fazer ainda há pouco. Quando vires o mundo que conheces assumir formas espectrais, como se se tratasse de essências a pairar pelo ar, estás a ver o mundo tal como ele é. O mundo real. Tudo o que existe liberta energia, é isso que passarás a ver sempre que saíres do mundo alternativo para o mundo real.”. Fechei novamente os olhos, concentrei-me. Agora tudo se havia calado, não percepcionava um único som, o silêncio total impressiona! Quando os abri, vislumbrei as tais auras. A floresta mostrava-se para mim. Tudo aquilo que nem há 5 minutos me era totalmente desconhecido surgia agora como nunca havia visto. Um enorme rastro branco surgiu à minha frente. Assumia formas curvas, altos e baixos até perder de vista. Naquilo que parecia ser o seu fim avistei um ponto vermelho, foquei-o e senti um ardor doloroso, um grito percorreu-me o cérebro, um odor pérfido inundou-me as narinas. “Já lhe encontraste o rastro! Faz o que tens a fazer!”. Enveredei pelo rastro, a correr desenfreadamente como se de uma estrada se tratasse. Ramos trespassavam-me a pele, deixavam a sua marca como que a lembrar-me de que tudo o que produz energia pode ser sentido, de uma forma ou de outra. Agarrei um ramo de um azul turquesa vivido e arranquei-o. Sentia a sua energia pulsar na minha mão. Alcancei o espectro vermelho ao fim de algum tempo de perseguição. Parecia não querer fugir, mas também não ansiava pelo confronto. Agora perto dele, o odor nauseabundo que emanava era mais intenso, mas não era repugnante, era mais uma espécie de aviso de que não se tratava de um ser para brincadeiras. Ao sentir-me saltou na minha direcção. Um salto de uma magnitude inconcebível no mundo alternativo, mas bem real pelo que me era dado a ver. Num ápice deixei a minha forma humana, alternativa, assumindo uma aura branca, da mesma tonalidade do rastro que havia seguido. Ergui o ramo que havia colhido e também eu, num salto irreal enfrentei a fera.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

1 - O despertar.

Ouço o som de chamada de atenção do intercomunicador. Será que foi feito algum estudo para perceber qual o som que mais captava a atenção das pessoas? É que o som tanto no metro, como no comboio, ou até mesmo num centro comercial é tremendamente semelhante. Seguidamente surge uma voz feminina, o porquê de ser feminina também é algo que me escapa. Em Praga era normalmente masculina. Provavelmente é uma questão cultural. A voz anuncia “próxima paragem, Monte Estoril”. Tudo isto foi assimilado pelo meu inconsciente enquanto leio um thriller psicológico de um autor japonês. Subitamente a leitura torna-se turva, desconexa e incoerente, ergo o meu olhar e vislumbro rostos familiares, há já um certo hábito na selecção da carruagem e dos lugares ocupados nesta, o sentimento de vazio encontra-se expresso na maioria desses rostos, olhares direccionados para nada em concreto, perdidos, feições sem qualquer expressão de alegria ou infelicidade. Impressiona o número de pessoas que estão presentes numa só carruagem e a forma como os seus olhares, apontando em diversas direcções, não interceptam outro olhar. Não o querem fazer... pois numa troca de olhares realiza-se um diálogo, um diálogo mudo que muito conta sobre nós. Olho para a minha direita, vejo a estação a ficar no passado recente, o comboio vai deixando lentamente o apeadeiro, olho para a esquerda e lá estás tu. O teu rosto delineado de forma exótica, o teu vestuário de executiva, o perfume enebriante descompassa-me os sentidos. Há algo estranho em ti, para além da sensualidade. Olhas para mim e sinto uma impetuosidade tamanha que me esmaga contra o metal da carroçaria, a temperatura gelada deste assemelha-se a vários punhais trespassando a flor dos meus nervos. Estabeleces um diálogo comigo, por mais que tente não consigo desviar o olhar. Ninguém reage! É o normal, estão todos no seu sonambulismo habitual. Dizes-me que fui escolhido. Escolhido?! Escolhido para quê?! Tudo isto era pronunciado através da intensidade com que as tuas retinas fitavam as minhas, não havia qualquer emissão de som para além dos habituais numa viagem de comboio, tudo à minha volta parecia congelado no tempo. Repentinamente fez-se luz, percebi o que querias dizer, era tão óbvio, tão cristalino que se revela de uma dificuldade extrema percepcioná-lo sem que alguém nos guie, pelo simples facto de que estamos socialmente formatados para olhar para além disso... ou melhor, para olhar aquém disso. Ficamo-nos somente pelos estereótipos sem tentar perceber os dois lados dessa eterna fronteira. Assenti com um gesto de cabeça e permanecemos como dois estranhos, cada um olhando para o nada, tal como deveria ser.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Custa acreditar!

Uuuuuussshhhhhhh!! O frio gélido trespassa-me a face, o vapor exalado do interior dos meus pulmões, quentes e repletos de vivacidade, paira no ar rarefeito. O sono abandona-me, deixa-me solto para ser tomado nos braços da adrenalina. E eu cedo. Cedo ao chamamento da vertigem, do enturpecer dos sentidos, da vontade de ganhar mais e mais velocidade. Sentir os flocos de neve numa luta desenfreada por se reagruparem novamente perante o deslocar do meu peso. A descida envolve-me, aconchega-me, seduz-me e eu deixo-me ir livremente, pairo como o vapor da minha respiração numa correria enlouquecida contra a resistência aerodinâmica. Quando finalmente paro, realizo que estou exausto, como se tivesse sido agredido de forma selvagem. Mas a felicidade, a alegria, essas permanecem em mim, não me deixam esquecê-las, agarram-se às profundezas do meu interior como se fossem lapas e expulsam debaixo de vassouradas a súbtil ideia de estar cansado, ou mesmo insatisfeito com o que quer que seja. Lentamente, após a sua instalação, despertam em mim um sorriso inocente, infantil... genuíno.

Desperto do transe em que entrei e digo "sim"... "gostaria muito de te ver novamente!".